Oscar D’Ambrosio

Jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituro de Artes da UNESP. Integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA- Seção Brasil)

Um dos principais fascínios da arte é a sua capacidade de estabelecer pontes entre pessoas, nações, continentes e visões de mundo. O bom artista é justamente aquele capaz de manter viva uma postura indagadora, pronta a desafiar o observador com o talento de seus trabalhos.

O trabalho pictórico do artista plástico chinês, naturalizado brasileiro, Tai Hsuan-An apresenta elementos da arte oriental, incorporando fatores de sua convivência com o Ocidente. Destaca que para sua capacidade de criar trabalhos que provocam estranhamento por harmonizar elementos que a crítica mais tradicional considera até irreconciliáveis.

Tai chegou ao Brasil aos 15 anos. De família de artistas, toda a sua educação foi voltada para o desenvolvimento de seu talento, gerando uma sólida formação na pintura clássica chinesa, principalmente na forma ímpar dessa cultura trabalhar as paisagens e a natureza. Em São Paulo, foi aceito como discípulo do mestre Sun Chia Chin, aprimorando, de 1967 a 1976, a prática na pintura oriental.

No ano seguinte, concluiu a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na USP, e se mudou para Goiânia, tornando-se professor de Artes Plásticas e Design no Departamento de Artes e Arquitetura da Universidade Católica de Goiás. O Artista busca, cada vez mais, maior liberdade em suas composições. As paisagens começaram a ser fruto de sua imaginação. As folhas se desmancham em nome de ricas imagens em movimento, em que Tai explora ao máximo seu potencial de construir elementos da natureza sob nova perspectiva.

Tai não é só uma ponte entre mundos. Seu trabalho é pleno de autonomia e originalidade. Livre amarras estilísticas, deixa soltar o poder de seus pincéis para tratar a natureza de forma pessoal e criativa, numa sábia mescla entre a delicadeza e o lirismo do Oriente e uma palheta progressivamente tropical.
Antônio da Mata - 2001

Na sua pintura tudo é possível, tudo é provável e sua imaginação tece várias formas. A tinta diluída faz fundo para um jogo de formas onde as cores que se enfrentam, que se fundem e que se entrelaçam na execução de um balé de trocas entre o vegetal e o animal. A idéia e o fazer artístico têm posição de síntese, harmonia e equilibrada na obra do artista.

A transparência interior e o sentido universal que suas obras sugerem, é retomada agora de forma intencional, ao mesmo tempo em que outras portas se abrem para novas experiências.

São indagações sobre a busca de formas figurativas, ora vegetal, ora animal; pesquisa de novas relações figura/fundo; exploração da expressividade da matéria pictórica, ora mais densa, ora mais diluída; captação do movimento das figuras; procura da essência da forma e maior atenção dirigida ao significado da pincelada indicial de movimentos amplos, quer espontâneo, quer dirigidos com maior precisão, originando zonas de tensão, indicativas de um processo criativo marcado por um intenso lirismo.
Miguel Jorge - 1988

Tai parte para investigações líricas, aprofundando-se nas impressões de cenas exteriores. Há um quê de singeleza na materialização das formas, sustentadas por um segundo plano com cores chapadas, e espaços vazios, onde a intervenção, se houver, correrá por conta do espectador. Importante também são as linhas que contornam um desenho leve, solto, suportes para uma técnica, onde o pintor narra, com beleza e equilíbrio emocional, pequenas histórias de fundo de quintal.

São profundamente importantes as manchas, o sombreado, o toque de magia, a musicalidade integrada a ritmo da composição, a divisão de planos, a conotação viva de um contexto com nossas raízes culturais...

Esta é a trajetória do artista Tai Hsuan-An: uma trajetória firmada por um intenso trabalho, pela seriedade, e mais ainda pelo relacionamento entre homem-natureza-cultura.
Miguel Jorge – 1985

Amparado por uma forte personalidade artística, que lhe veio da tradicional escola de arte da China, Tai se renova em cada composição, buscando expressar a realidade que o toca mais de perto, registrando os sentimentos naturais do homem, que é o seu amor pela natureza, animais, plantas...

Tai é pintor da vitalidade, das cores fortes, assumindo-as com rara felicidade, movimentando as tonalidades que vão do amarelo ao verde, ao vermelho, ao ocre, com plena energia, dando vida e movimento ao elemento representado.
Saída Cunha

Nesta exposição, Tai faz um retorno à sua arte e provoca com isso uma reflexão sobre sua trajetória como artista e como ser humano. Homem e artista caminham juntos e suas mudanças se entrelaçam.

Quando chegou ao Brasil, era um rapaz tímido, com um enorme potencial.

Trouxe na sua bagagem artística uma autêntica e clássica pintura chinesa.

Mudando-se para Goiânia, o convívio com artistas locais e sua própria aceitação de uma cultura ocidental começaram a interagir na sua forma de perceber sua arte, sua vida. Reflexo do íntimo do seu ser, as mudanças aconteceram também na sua pintura.

Assim, quando com os amigos artistas, começou a sair para a periferia para pintar e desenhar, seu olhar para aquelas paisagens de casas simples era diferente do olhar de seus amigos. Enquanto eles se fixavam em recortes de ruas e casas, sensivelmente Tai buscou mais.

Buscou a vida que acontecia ao nosso redor. Em vez de pintar as paisagens com aquela perspectiva tradicional, teve a curiosidade e a perspicácia de entrever o que acontecia no viver simples daquela gente e assim descobriu as colchas de retalhos que coloriam os varais e suas telas. Suas pinturas, tradicionalmente mais contidas nas cores, explodiam alegremente coloridas.

A beleza das folhas de bananeiras sutilmente representadas em verde-azuis, com suas nódoas avermelhadas, e o dourado das folhas queimadas pela luz do sol revelavam a intimidade e a simplicidade do viver do humilde povo goiano. Outras vezes, irrompia na sua tela o arame farpado de uma cerca ou a beleza exótica e poética da quase solitária flor da bananeira. Noutras, suas pinturas brincavam com as luzes e suas suaves sombras e provocavam um ritmo musical que nos fazia crer que podíamos ouvir o vento. Tai encanta Goiânia e a conquista.

E o homem Tai vai também crescendo na sua aceitação de uma nova pátria, embora seu coração seja eternamente chinês. Sua arte acompanha sua alma e ele trilha vários caminhos. Sem medo, ele experimenta novas técnicas e novos temas.

Vai do abstrato ao figurativo, do desenho com lápis, caneta, ao nanquim. Caminha sem barreiras, livre, obedece apenas aos ditames do seu coração. Paralelo a tudo isso, com sua surpreendente capacidade de criar e trabalhar, Tai só lamenta que o homem não possa viver 150 anos para poder realizar tudo aquilo com o qual sonha. Mas, com sua insaciável capacidade criativa, 150 anos ainda lhe parecem pouco.

Tai desenha, pinta, escreve livros, projeta e constrói móveis e brinquedos e ainda encontra tempo para ser, com paixão, professor e amigo.
PX Silveira – 1986

O artista Tai Hsuan-An é nosso passaporte para uma região transcendental da pintura, impossível de dizer qual, pois que ela não existe definidamente ou sequer por rótulos ou conceitos.

Paira, esta região, entre duas fortes maneiras de ver, viver e representar a vida. Uma, a maneira cabocla, tropical, bem brasileira. Outra, a maneira que nos inspira Zen, se equilibrando entre a razão e a religião.

Pertencente com destaque e louvor à segunda geração de pintores desta cidade jovem e acolhedora que deu de se chamar Goiânia, Capital de um Estado (Goiás), cujo nome foi apropriado dos índios Goya, Tai Hsuan-An trilha um caminho em solo, com uma pintura única e que abrange pólos extremos.

Citaria primeiro o pólo regional, no qual Tai resgata uma poética visceralmente típica e ao sol da região – e, no entanto, nunca d’antes abordada. Exemplos: nada mais goiano que a maneira que este artista vê um pássaro, uma ave, uma planta. E nada mais intrigante também.

A explicação está no outro pólo: o universal. É aí que Tai nos leva longe ou, quem sabe, perto demais. Quando o abordamos por este seu outro ângulo, ele se transforma em um complexo laboratório de emoções, catalisador das vibrações do Oriente e Ocidente.
Pedro Wilson Guimarães - 1985

Tai, a partir da natureza, revela nossa realidade social, centrando-a num belo e recolhido papagaio ou num espaço de quintal; expressa situações de pobreza, sinalizadas nos retalhos, nos portais de casas velhas, nas cercas de arame farpado, controladoras de animais/gente. São varais de roupas remendadas coloridas e limpas, como é o povo simples. São ambientes testemunhos por gatos, araras e cavalos, por tesouras e ferros caseiros...

A capacidade do artista vai de uma bucólica paisagem para um objeto de uso e de comunicação/anúncio formal e adequado. Pode-se dizer, com simpatia, que Tai expressa com coração e ciência os aspectos de nossa realidade viva do Brasil Central...

Tai é artista da linha de pesquisa, do suor, da dedicação e, essencialmente, da sensibilidade e da criatividade que transformam pincéis, técnicas, tintas, modelos, telas e vontade em quadros de belezas originais permanentes.
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