Desenho

Como artista plástico, faço desenhos sem a intenção de transformá-los em obras de arte finalizadas, mas com muita espontaneidade e liberdade, sem nenhuma preocupação com o seu valor artístico.

Eu comparo o ato de desenhar com o de falar espontaneamente, porque tanto desenhar como falar é um ato de expressar com naturalidade. Na maioria das vezes, eu simplesmente desenho em qualquer papel, de qualquer formato.

Como designer, uso o desenho ou o modelo tridimensional para apresentar claramente minhas idéias. Quando quero expressar uma idéia, que possa ou deva ser visualizada, eu recorro ao desenho e ao modelo.

Ambos os meios são, para mim, fundamentais durante o processo projetual e, principalmente, nas suas fases criativas, especulativas e experimentais. Durante as várias décadas, como professor, recomendo aos meus alunos a trabalhar usando bem esses meios em processos criativos.

Meu livro, Desenho e Organização Bi e Tridimensional da Forma, fala da importância do desenho e dos métodos da aplicação dele que possam levar os alunos a obter resultados por meio de processos criativos.


Textos do livro Desenho e Organização Bi e Tridimensional da Forma
Desenho: condição especial das artes visuais, do design e da arquitetura

Graças à sua ação criadora, o homem existe, porque evolui em constante e eterna luta pela sobrevivência e vida melhor, mediante essa ação criadora, transformando e dominando a natureza e adaptando-se ao mundo que ele criou à sua medida.

A ação criadora é fundamental na vida e no próprio desenvolvimento do homem, porque ele tem que repeti-la em cada momento, quando procura satisfazer sua própria necessidade, tanto material como espiritual.

O desenho, em seu sentido mais amplo, é ação criadora que abrange a atividade mental. Portanto, o pensar é também o desenho, o ato inicial de todo o processo da ação criadora. Na maioria das vezes, a atividade mental é transformada em coisas concretas – eventos, fenômenos, objetos etc, o que nos permitiria concluir que todas as coisas ao nosso redor são produzidas por meio do desenho, o qual desempenha, sem dúvida, um papel importantíssimo e decisivo na vida humana.

O desenho, a palavra propriamente dita, significa a representação por meio de linhas numa superfície. É, evidentemente, uma forma ou um meio de tornar a idéia mais clara, servindo como registro, ou para possibilitar a transmissão da idéia aos outros. A idéia é quase sempre expressa com certo sentimento que dá a tal meio o caráter de reflexo ou eco. O desenho, entendido desta forma, estabelece-se como a primeira condição especial de quase todas as artes visuais, tais como pintura, escultura, comunicação visual, design, arquitetura e outras.

A disciplina do desenho específico para cursos especializados em artes visuais deve, indispensavelmente, começar em nível básico, isto é, fundamentos do desenho, proporcionando assim noções básicas sobre os elementos visuais, seu uso e organização.
Uma forma de expressão espontânea do homem

Nas artes visuais contemporâneas, o desenho não é apenas a base; ele é, ao mesmo tempo, uma forma artística independentemente desenvolvida.

Usar a linha para representar imagens é uma das formas de expressão mais espontânea do homem. Já nos tempos primitivos, o homem desenhava figuras ou sinais em cavernas. No século XV, artistas renascentistas procuravam retomar aos tempos greco-romanos para criar imagens realísticas. O desenho apareceu como croquis e exercícios, realizados com exigências rigorosas na proporção e perspectiva, e espírito de pesquisa quase científico.

Dos pintores renascentistas exigia-se transpor com exatidão e rapidez o espaço, profundidade e volume em telas, procurando em nível máximo representar o espaço tridimensional num plano de espaço bidimensional com estas exigências. Desenhar fielmente o que viam era o importante.

Leonardo da Vinci foi um dos grandes mestres que atingiu o auge desta forma de expressão. A pintura e a escultura eram feitas por processos complexos. O desenho era geralmente a estruturação da exteriorização da idéia. Por isso, ele é como cartas e anotações de um escritor.

Permite-nos conceber diretamente o início de exteriorização da idéia do artista, e nele vemos claramente seu espírito e sentimento. Mas, obras de desenho eram todas guardadas, nunca expostas e avaliadas independentemente, como a pintura e escultura. Este fenômeno só terminou quando o desenho apareceu com uma nova face.
O desenho liberto da limitação tradicional

A imagem da criação artística muda de acordo com a ideologia e o pensamento da época. No desenho de Rembrandt do século XVII, por exemplo, podemos verificar que a sua criação já evoluiu para uma outra extensão, uma outra era.

A expressividade da linha e do traço prevaleceu sobre a exatidão formal. Nesta dimensão os artistas começaram a ser libertos da limitação tradicional, e o deleite de desenhar com expressividade superou a função do desenho como simples exercício e esboço para a elaboração de uma obra.
Nova atitude de ver o desenho

No entanto, o desenho como uma forma de croqui continua existindo na arte moderna. Por exemplo, os desenhos de Henry Moore, Oldenburg e Christo serviram como croquis para suas esculturas. Mas, agora, nossa atitude de ver esses croquis é mais aberta, porque somos capazes de enxergar mais além de simples aprimoramento de técnica e de material.

Enquanto a arte moderna começa a supervalorizar a idéia, alguns artistas chegam ao extremo, argumentando que a criação de arte é possível sem necessariamente produzir objetos ou eventos.

Desenhos, rabiscos ou até escritos sobre qualquer superfície, seja cartão postal, papel milimetrado ou parede, são consideradas verdadeiras obras de arte, desde que haja a causa.

A evolução da arte e suas novas conceituações em nossos dias são problemas muito complexos, e sobre os quais há opiniões antagônicas e constantes controvérsias manifestadas em eventos intelectualistas.

Todavia, devemos preocupar-nos com as coisas que são básicas e essenciais para nós. Por exemplo, o desenho de observação ainda constitui um estágio de preparo indispensável para qualquer gênero de artes plásticas. Sabemos que o desenho é, antes de tudo, a primeira condição especial de quase todas as artes visuais.

Fontes de inspiração

A sabedoria, as realizações dos antepassados, as experiências dos grandes mestres e os acontecimentos históricos são, para nós, verdadeiras fontes de pensamento porque provocam controvérsias e fornecem recursos, os quais, de certa maneira, estimulam nossa sensibilidade para a atividade de criação.

Desde os tempos paleolíticos, o homem nunca deixou de procurar inspirações na grande natureza – uma fonte inesgotável, por causa do seu constante contato e luta com ela, cuja beleza, riqueza e mistério sempre motivam sua exploração pelo homem. Hoje, apesar do gradual afastamento em sua vida cotidiana, o homem urbano não pode deixar de ser envolvido na procura pela natureza.

Despertado pela necessidade e pela curiosidade ainda maiores, ele vai mais além, tentando sempre descobrir tudo com minúcias, muitas vezes auxiliado por estudos especializados em aves (ornitologia), peixes (ictiologia), animais em geral (biologia e zoologia), plantas (botânica), estruturas terrestres (geologia) e outros. Sem dúvida, tudo que o homem conquistou até hoje veio da natureza e tudo que o homem faz também se inspira e se extrai da natureza. Não é difícil concluirmos que a natureza e o mundo criado pelo homem, ou melhor, a própria vida humana é a verdadeira grande fonte de criação artística.

Nas atividades de criação, o contato com a natureza é indispensável para que possamos descobrir o equilíbrio, a harmonia, o contraste, o ritmo, a ordem, o movimento e muitas outras qualidades sensibilizantes dos seres naturais através de observação, percepção e compreensão das leis da natureza. Para isso, os estudos especializados oferecem visão mais ampla e profunda complementando a nossa percepção sensorial cujo alcance normal é limitado.

Formação técnico-científica e subjetivo- expressiva do designer e do arquiteto

Se não negamos a importância da formação tanto técnico-científica como subjetivo-expressiva de estudantes de design e da arquitetura, concordaremos que ambas as formações devem sempre se apresentar integradas. Em todos exercícios práticos, aplicados ou não às atividades projetuais, a integração sucede-se de modo que o processo se desenvolve evolutivamente, do nível espontâneo e quase lúdico ao nível técnico e normativo. Em todo o processo, o indivíduo observa, percebe, analisa, experimenta, verifica, descobre, aplica. Enfim, tira o maior proveito o possível, de elementos e princípios considerados essenciais para aplicação no seu produto. Para a correta efetuação desse processo especulativo e experimental, um ambiente propício à liberação da criatividade toma-se realmente fundamental.

Os exercícios do primeiro semestre visam a proporcionar noções sobre o uso e a organização dos elementos visuais basicamente de duas dimensões e favorecer a familiarização com técnicas e materiais variados em nível mais espontâneo. Os primeiros contatos com as formas tridimensionais se limitam na composição também mais livre e espontânea, sem preocupação com as restrições projetuais. Gradualmente, os sólidos primários, tais como cubo, pirâmide, cone, cilindro e esfera, são introduzidos para o estudo tendendo chegar a nível técnico-científico.

Posteriormente os exercícios devem concentrar-se na solução de problemas de caráter projetual, com objetivo principal de capacitar os alunos a criarem e construírem formas tridimensionais experimentais e aplicáveis ao design e à arquitetura em geral. Uma gama muito maior de critérios é aplicada aos exercícios e à avaliação.

Os métodos aplicados podem orientar os alunos a elaborarem trabalhos para que possam atingir objetivos estabelecidos sem se perderem em arbitrariedade. Levando em consideração o desenvolvimento gradual e paralelo da capacidade e da habilidade em manipular a linguagem visual e da sensibilidade ou capacidade criativa, parece lógica a aplicação de um método integrado e recorrente de análise-síntese e bi-tridimensional. Deste modo, cria-se uma fluidez de trabalho experimental em que o estudante cria baseando-se em raciocínio e intelecto, analisa para chegar à síntese, registra a idéia graficamente para chegar ao produto tridimensional, de tal modo que a síntese provoca a análise e que a verificação do produto tridimensional estimula a descoberta do possível erro ou inadequação. Esse processo estimulador de pesquisa morfológica, partindo de uma causa (percepção e compreensão de um objeto) para chegar a propostas satisfatoriamente elaboradas após uma série de experimentações com formas e materiais, permite a evolução gradativa do desenho em termos de diversificação de propostas e do seu aperfeiçoamento configural e compositiva.

A estratégia metodológica para busca de idéias e soluções, proposta aqui, sugere aplicar, de modo recorrente e quase simultaneamente, análise e síntese e também a representação bidimensional e a tridimensional.

Da análise à síntese, o trabalho começa por observação, registro gráfica e compreensão do objeto complexo, passando por métodos de captação de elementos essenciais, de simplificação, de interpretação e de abstração, para chegar à forma relativamente mais simples – o extrato. A partir daí, é possível também retornar à análise. Assim, sucessivamente. Como também é possível, a partir da forma simples realizar a re-organização ou a nova estruturação dos elementos para obter uma forma complexa.

Na criação da forma tridimensional, o desenho é primordial nos primeiros momentos. Porém, a construção de modelos experimentais ou de estudo constitui uma técnica de importância comparável à do desenho. A prática do desenho e da feitura de modelos, de modo quase simultâneo, não só auxilia os alunos na visualização mais clara da forma tridimensional e na percepção espacial, como também aumenta a fluidez da geração de idéias. Se croqui (esboço) é fundamental, podemos dizer que o modelo experimental é uma forma de “croqui” tridimensional.
O desenho como uma forma de expressão independente

O desenho tomou-se uma forma artística independente e apareceu com um aspecto ainda mais rico nos meados do século XIX, com a manifestação do realismo romântico e do impressionismo.

O intento criativo não servia mais aos temas da corte e da religião, senão a expressão da natureza humana e da vida.

A liberação da técnica e da forma de representação do desenho não se limitou a trabalhos monocromáticos, desenvolvendo-se com a introdução de materiais variados, como lápis de cor, crayon, aquarela etc.

Assim, o prazer da criação possibilitou ao desenho a se firmar como uma forma de expressão independente. O trabalho de Lautrec mostra a individualização e a liberação mais forte do uso da linha, da forma, composição e organização do espaço.

Quando a obra de arte começou a libertar-se da função de imitar e registrar a exterioridade da natureza, a forma plana e a cor atraíram grande interesse.

Muitas vezes, as técnicas e os métodos particulares de desenho foram utilizados na pintura. Obras de Lautrec e Matisse são exemplos típicos dessa espécie.
O desenho moderno

Assim, com a rápida transformação da arte ocidental, começou a era da arte moderna do Séc. XX. Não podemos falar sobre o desenho moderno sem antes entendermos a arte moderna, porque obras de desenho moderno apareceram sob a influência da arte moderna. Um importante fator que impulsionou a arte moderna foi a sua consideração especial pela idéia.

Embora a arte sempre tenha colocado a idéia e a técnica num mesmo plano, artistas do século XX elevaram gradualmente sua idéia e seu sentimento ao plano superior.

A tecnologia, as grandes guerras e a instabilidade política e econômica foram responsáveis pela destruição do conceito de valores próprios da sociedade humana, e fizeram com que certos conceitos tradicionais da arte se tornassem restritivos para a criação. Um dos conceitos do desenho moderno, extremamente diferente dos tradicionais, não mais considera o desenho como simples exercício ou croqui.

Alguns artistas julgam que, ao desenhar, a situação, a atividade mental ou sua atitude são exatamente as mesmas para realizar qualquer gênero de trabalho artístico, e concluem que não há um primeiro passo na elaboração de uma obra, ou seja, o croqui é a própria obra, ele é o início e o fim.
O desenho como a primeira condição especial de artes visuais

Profissionais ou não, se pretendem participar mais intensamente de atividades de criação, interpretação ou apreciação de obras de arte, requerem necessariamente muita atenção não só aos elementos intelectuais e emocionais envolvidos nos significados das obras de arte, mas também aos elementos visuais e sua organização, para ajudá-los a entender outro aspecto puramente estético. Para isso, torna-se necessária a aproximação dos interessados com amplas áreas de pesquisas e estudos.
Experimentação e domínio mental, visual e manual

De certo modo, é também importante a experimentação desinibida com materiais, instrumentos, métodos e processos, a fim de se obter meios de expressão mais apropriados, de acordo com a necessidade de cada indivíduo.

Mas é importante sabermos que, antes de tudo, o domínio de uma ou mais técnicas fundamentais prevalece sobre qualquer experimentação.

Entre todas as técnicas, a grafite é o mais utilizado e básico, por ser um instrumento relativamente de fácil manejo e que possibilita grande variação de linhas em termos de espessuras e tons.

Ver e expressar são influências recíprocas. Ambas se sujeitam à procura de conhecimentos mais amplos e dependem da persistência, da assiduidade e, muitas vezes, de experiências sofridas. Desenhar é um processo da ação criadora que se desenvolve mediante a percepção, reflexos intuitivos e intelectuais e controle do material.

O desenho executado por um computador não foge desse esquema, porque, afinal, é concebido primeiramente por meio do pensar. “Alcançar através do olho, da mente e da mão", uma sugestão chinesa que indica o caminho infalível de fazer a arte, enfatiza esse processo.

Fundamentos de desenho desenvolvidos neste trabalho têm exatamente o objetivo de apresentar com maior clareza o método de desenho por este caminho – percepção, reflexos intuitivos e intelectuais e controle do material.

Pela natureza do desenho racionalizado proposto neste trabalho, com o objetivo voltado mais para o design e a arquitetura, é preciso ressaltar o seguinte raciocínio como uma lógica imprescindível: o pensar, ato inicial de todo o processo da ação criadora, pode ser considerado como o primeiro passo do desenho cujo produto final é concreto quando é perceptível com suas qualidades tátil e visual.

Queira ou não, o desenho antecipa o produto, porque o desenho é primeiramente o próprio pensar, o pensar é o ato inicial e, ao mesmo tempo, a concretização e o pensar se misturam e se unificam. Assim, parece justo julgar o ato de criação como um processo de pensar-concretização.
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